Da Teologia Apofática como antídoto do Niilismo
- Onde, como e quando há diálogo?
- Personalismo e niilismo
- Teologia apofática e personalismo
- Onde está o niilismo?
- Por um princípio de realidade rival do niilismo
Onde, como e quando há diálogo?
Devemos antes de tudo esclarecer a relação entre o tema que proponho e aquele de nossa tratativa, na qual se pergunta se o impacto planetário do pensamento ocidental torna possível um diálogo «real» entre as civilizações. Este esclarecimento preliminar postula um tríplice ponto de vista: onde, como e quando há um diálogo?
1) Um primeiro problema que surge é este: já houve precedentes de um diálogo entre civilizações? Na realidade, o termo «civilização» é abstrato. Não são as «civilizações» enquanto tais (os «universais») que podem dialogar. Somente seus porta-vozes podem ser os interlocutores reais do diálogo. Nesse sentido entendo o adjetivo «real» posposto à palavra «diálogo» no enunciado do tema de nossa conferência.
Sob este aspecto, a título de precedentes, devemos levar em consideração as grandes empresas de tradução conduzidas ao longo dos séculos. Em ordem cronológica, recordaremos particularmente: a) as traduções do sanscrito ao chinês (dois príncipes arsácidas traduziram, no século II, o texto fundamental do budismo da Terra Pura, o Sukhavati). b) Para o fim do período sassânida, as traduções no Irã do grego ao pahlavi. c) Nos primeiros séculos do Islã, as traduções do árabe ao latim, com a interferência dos textos filosóficos em hebraico e árabe. d) No século XVI, a generosa reforma de Shah Akbar, que estimulou as traduções em persa a partir do sanscrito.
Ainda sob este aspecto, poder-se-ia encontrar uma razão de otimismo no multiplicar-se das traduções em nossos dias. Mas até que ponto será legítimo professar tal otimismo? Ressaltemos antes de tudo, com vigor, o interesse apaixonado manifestado pelo Ocidente, a partir do século XIX, pelas explorações arqueológicas, pela redescoberta de cidades desaparecidas, pelo reencontro de coleções de manuscritos em que se ocultavam os segredos de sistemas filosóficos e religiosos. A consciência ocidental obedeceu a um imperativo da pesquisa que é tudo, menos um obstáculo ao diálogo, e que revela preocupações muito distantes do materialismo que demasiadamente se lhe atribuiu. Esta pesquisa implica a disponibilidade de colocar novamente em questão o já adquirido, em contato com concepções redescobertas. Mas em que medida houve reciprocidade? Manifestou-se no Oriente semelhante interesse pelas grandes tradições espirituais do Ocidente? Não ousaria responder afirmativamente: eis por que, na ausência de um diálogo «real», nos limitamos ao monólogo.
As responsabilidades são partilhadas, certamente. Mas, dado que um diálogo se desenvolve entre «pessoas», para que exista é necessário que as posições dos interlocutores tenham algo em comum. Um diálogo ocorre entre «eu» e «tu»: é necessário que «tu» e «eu» estejamos investidos da mesma responsabilidade de um destino pessoal. Colocada assim a questão da pessoa, aproximamo-nos bastante da compreensão do tema que propus.
2) Para que haja um diálogo «real», tudo depende de fato da situação de quem participa do diálogo. A preocupação subentendida no enunciado do tema de nossa conferência é o fato consumado referente ao desaparecimento das civilizações ditas tradicionais, sob o impacto do que se denomina, de maneira sumária, niilismo. Essencialmente trata-se do niilismo metafísico, que procede do agnosticismo radical, da recusa em «reconhecer» alguma realidade transcendente ao horizonte empírico e às certezas racionais. Pode haver, então, um diálogo «real» entre interlocutores que talvez tenham cedido ao niilismo, e outros que, ao contrário, resistem-lhe eficazmente?
Certamente, em nossos dias são frequentes os encontros entre técnicos e os congressos sobre tecnologia. Coloca-se imediatamente a pergunta: a tecnologia é suficiente para preencher o conceito de civilização? Não implica este último, porventura, uma força secreta, invisível, que se deve chamar força espiritual, a qual determina o conteúdo e a finalidade desse conceito e que, enquanto tal, transcende as premissas colocadas pela tecnologia? Se não o implica, poder-se-á adaptar-se ao nivelamento, senão à ausência das pessoas: no limite, bastarão algumas máquinas informáticas devidamente ajustadas. Mas se o conceito implica outra coisa, é o estatuto das pessoas participantes que se coloca em questão, isto é, aquilo de que e aquilo pelo qual não pode responder outro senão a pessoa humana em sua individualidade espiritual inalienável. Em sua ausência, na ausência daquilo que torna possível seu primado, encontra-se diante do niilismo agnóstico: já não há pessoa.
3) É precisamente aqui que se insere o tema por mim formulado. Na verdade, não sou o primeiro a observar como os sistemas sociopolíticos, que do Ocidente contemporâneo transbordaram sobre o planeta inteiro, são a secularização de sistemas teológicos anteriores. Significa também constatar implicitamente que o conceito de Ocidente em sua plenitude não pode identificar-se pura e simplesmente com essa secularização. E constatar igualmente que o fenômeno não é de pertença exclusiva do Ocidente, dado que o próprio mundo oriental é presa do que se chama «ocidentalização». Eis por que, mais do que nunca, o contraste entre «Oriente» e «Ocidente» adquire seu significado apenas em nível metafísico, onde o situaram os filósofos iranianos desde Avicena e Sohrawardi.
Neste nível, o contraste já não é de ordem técnica, nem geográfica, nem histórica, nem jurídica. O contraste essencial manifesta-se entre sacralização e secularização. Entende-se aqui por «sacralização» o anúncio, intimamente reconhecido, de um mundo sagrado-transcendente (alam al-qods) nos fenômenos e nas aparências deste mundo. Atenção: a secularização de que se trata é uma secularização que visa à destruição do plano metafísico. O seu contrário, portanto, não é de modo algum uma sacralização de instituições sociais e políticas, pois tal sacralização pode comportar precisamente a profanação do sagrado (sua materialização). Ao contrário, a secularização das instituições pode conduzir, muito simplesmente, por meio de uma confusão mortal, à sua pseudo-secularização. Desejaria que nossos jovens colegas orientais estivessem sempre perfeitamente conscientes desse paradoxo. Houve, por exemplo, o fenômeno característico da história religiosa do Ocidente: a Igreja. A separação entre Igreja e Estado, onde ocorre, consuma certamente a dessacralização e a secularização da vida pública. Mas, na medida em que essa dessacralização procede da negação de toda perspectiva metafísica, de todo «retro-mundo», eis que um pseudo-sagrado pode reinvestir as instituições humanas secularizadas. Ao fenômeno Igreja sucede, muito simplesmente, o Estado totalitário.
Isso ocorre porque sacralização e secularização são fenômenos que têm lugar e o seu lugar não primariamente no mundo das formas exteriores, mas antes de tudo no mundo interior das almas humanas. São as modalidades de seu ser interior que o homem projeta para fora a fim de constituir o fenômeno do mundo, os fenômenos de seu mundo, no qual decide de sua liberdade ou de sua escravidão. O niilismo ocorre no momento em que o homem perde a consciência da responsabilidade desse vínculo e proclama, com desespero ou cinismo, que estão fechadas aquelas portas que ele mesmo fechou.
A passagem do teológico ao sociológico cumpre-se quando o social toma o lugar do theos. Pelo horror de poder ser qualificada como serva da teologia, a filosofia torna-se serva solícita da sociologia. Infelizmente, a sociologia já não pode oferecer o resultado que lhe reserva a dupla modalidade da teologia, isto é, a teologia apofática ou negativa (o tanzih em árabe e persa) e a teologia afirmativa (ou catafática): os dois conceitos serão precisados a seguir. Com base no que se decide a respeito da relação entre uma e outra dessas duas modalidades, a respeito da precedência de uma ou de outra, conforme se aceite a ausência de uma ou de outra, decide-se da extensão do nihil do niilismo. O niilismo cultural é apenas o aspecto socializado de um resultado infeliz ou falhado dessa dialética, quero dizer, o resultado no qual se abole a preeminência da teologia apofática, de modo que os dogmas postos como absolutos pela teologia positiva ou afirmativa vacilam, privados de seus fundamentos e de sua justificação.
Tal resultado, portanto, liga-se ao destino da pessoa, ao destino daquilo que postula a existência real da pessoa humana e, com isso, ao destino das pessoas, dos eventuais interlocutores de um diálogo não irreal, mas verdadeiro. Por este motivo, meu tema propõe «a teologia negativa como antídoto ao niilismo».
Eis-nos – creio – no coração mesmo da questão, tal como a considero. Para chegar a uma solução, é necessário antes de tudo confrontar as noções de «personalismo» e de «niilismo». O que farei à margem de um recente artigo de um de nossos eminentes colegas, um filósofo francês, que denuncia, enquanto filósofo indianista, o personalismo do Ocidente como causa do niilismo.
Temo que o desacordo seja quase total, porque, exatamente ao contrário, vemos no impersonalismo, no enfraquecimento, no aniquilamento ou na alienação da pessoa, a causa e o resultado ao mesmo tempo do niilismo. A questão é tanto mais grave, pois coloca em discussão um conceito fundamental para a família das três religiões abraâmicas.
Devemos então examinar: 1) Qual conceito de pessoa se professa quando se a denuncia como causa do niilismo? Dito de outro modo, o que é do personalismo e do niilismo? 2) A razão dessa acusação ao personalismo me parece residir no fato de que se perdeu de vista aquilo que a tradição abraâmica em seu conjunto (portanto não apenas ocidental) considerou como teologia negativa ou apofática. 3) Em outras palavras, o que é da teologia apofática e do personalismo? Traçado esse confronto, poderemos discernir onde está em verdade o niilismo. 4) Poderemos então opor um princípio de realidade rival à concepção científica solidária com o niilismo. Nesse ponto deveremos ouvir a voz de nossos filósofos iranianos tradicionais, em primeiro lugar a voz de Molla Sadra Shirazi (1050/1640).